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14/07/2017

Arauco encontra R$ 500 milhões em passivos na Eldorado Brasil

Por Ivo Ribeiro e Stella Fontes | De São Paulo

Companhia chilena tem cerca de 40 mil hectares de florestas plantadas em áreas que estão próximas à fábrica da Eldorado, que fica em Três Lagoas (MS)

O processo de auditoria (due diligence) realizado pela chilena Arauco nos ativos da fabricante de celulose Eldorado Brasil já identificou pelo menos R$ 500 milhões em passivos e esse valor ainda pode crescer no curso das apurações, disseram fontes a par do processo ao Valor. Esses montantes vão pesar no fechamento do preço final da empresa controlada pela J&F Investimentos.

O valor surpreendeu os chilenos. Todavia, a percepção é a de que a firme intenção da Arauco de fincar bases no Brasil na produção de celulose poderá garantir algum prêmio aos vendedores, diluindo parte desses valores.

Na área logística ferroviária, a companhia teria um passivo da ordem de R$ 200 milhões com duas empresas do setor, referente a transporte e venda de material rodante e vagões. Os chilenos também teriam relacionado uma ação de R$ 100 milhões movida pela Fibria contra a companhia, por uso indevido de um clone de eucalipto por ela registrado, e uma série de processos tributários e trabalhistas. Nessa última área, seriam mais de 1,2 mil ações, as quais não estariam provisionados de maneira adequada.

Além disso, o Ebitda da Eldorado seria inflado por créditos de ICMS, lançados no balanço com um prêmio de até 30% que não devem ser devolvidos pelo governo de Mato Grosso do Sul. Por isso, esse prêmio não pode ser lançado na conta do resultado operacional, na avaliação de fontes do setor. A variação do valor justo do ativo biológico – que deve ser feita por todos da indústria – também é computada pela Eldorado no Ebitda, enquanto suas pares refletem esse valor no patrimônio líquido.

Ao fim do ano passado, a empresa da J&F e dos fundos de pensão Petros e Funcef era parte em processos de natureza ambiental, cível, trabalhista e tributária no valor de R$ 436,7 milhões (incluindo os R$ 100 milhões da ação movida pela Fibria). Desse montante, apenas R$ 7,5 milhões estavam provisionados.

Para negociar o ativo com exclusividade com a J&F, a Arauco fez uma oferta inicial de quase R$ 14 bilhões – equivalente a dez vezes o múltiplo de Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Com isso, a concorrente chilena tirou do jogo, num primeiro momento, as brasileiras Fibria (grupo Votorantim e BNDES) e Suzano Papel e Celulose.

O Valor apurou que os trabalhos de due diligence – comandados por Santander e dois escritórios de advocacia (Mattos Filho e Simpson Thacher & Bartlett – podem prosseguir até 2 ou 3 de agosto, com chance de um desfecho antes desse prazo.

Fontes ouvidas pelo Valor indicaram que o preço justo da Eldorado equivaleria a 8 vezes o Ebitda anual. No entanto, há quem pondere que a Arauco poderá pagar um prêmio para fechar o negócio e, assim, marcar sua entrada na produção de celulose no país.

A companhia chilena, que é uma das maiores empresas florestais do Hemisfério Sul, planeja há anos fazer celulose no país e chegou a comprar em 2011 um terreno em Inocência (MS), perto de Três Lagoas, onde está a Eldorado, para erguer uma fábrica. Na região, a Arauco já tem 40 mil hectares de florestas plantadas, mas os planos foram interrompidos pela proibição da compra de terras por estrangeiros no país.

Entre 2013 e 2014, segundo fonte da indústria, o comando da chilena se reuniu com o empresário Mário Celso Lopes, idealizador da Eldorado e seu ex-acionista, para avaliar a potencial combinação de seus projetos de celulose no país.

As conversas não prosperaram, mas os chilenos mantiveram-se firmes na proposta de ter uma fábrica no país. Em determinado momento, conta uma fonte do setor, a própria Eldorado fez uma oferta pela base florestal da Arauco na região, mas ela não se interessou. “Os chilenos são conservadores, mas arrojados em suas decisões de investimento”, observa um interlocutor. Em 2009, lembra uma fonte, em parceria com a sueco-finlandesa Stora Enso, ela aproveitou o momento financeiro complicado vivido pela espanhola Ence e comprou a fábrica Montes del Plata, no Uuguai, onde já tinha florestas.

O pagamento de prêmio pela Eldorado também se justificaria, segundo outra fonte, pelas vantagens competitivas da produção de celulose no Brasil. Aqui, o custo caixa – que é o mais baixo do mundo – pode ser até US$ 100 por tonelada menor do que no Chile, o que eleva as margens do negócio.

Para analistas ouvidos pelo jornal chileno “Diario Financiero”, é mais conveniente à Arauco a compra da Eldorado do que a execução de seu projeto de expansão Mapa, que prevê a ampliação e modernização de uma unidade no Chile com investimentos de US$ 2 bilhões. A preferência pela aquisição do ativo brasileiro, indicaram os analistas, deve-se ao fato de que a Eldorado adicionaria à Arauco Ebitda da ordem de US$ 500 milhões, quase o dobro do que se estima para o projeto Mapa. Além disso, a compra, na visão deles, traria a oportunidade de expansão da fábrica brasileira no curto prazo.

Fontes ouvidas pelo Valor disseram que as negociações com a Arauco estão avançando, mas como ainda não chegaram a um ponto irreversível, a mensagem enviada pelo vendedor a pelo menos outra companhia interessada no ativo foi de que não “desmobilizasse seus times”. Fibria e Suzano têm propostas e financiamento prontos para levar à J&F caso os chilenos desistam do negócio.

Procurada, a Eldorado, não comentou as informações. Em nota, informou que “por se tratar de transação confidencial, nenhuma informação sobre a negociação será informada com antecedência”.

Via: Folha de São Paulo — Clipping de notícias de Leônidas Herndl, com informações do país e do mundo, além de finanças, economia e demais temas pertinentes.
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